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  • Rodolfo Bontempo

Quatro décadas de água tratada na torneira do vassourense

Cedae chegou a Vassouras em 1978 e trocou água in natura

pelo tratamento do líquido que vem do Paraíba do Sul

Na década de 1970, Vassouras sofria com um problema crônico: a falta d´água. Por gravidade, a água chegava às residências a partir de nascentes na Estiva (Represa de Santa Catarina) e na Rua do Bingue (Ponte Funda) e através de uma rede incipiente instalada com os reduzidos recursos da Prefeitura na época. Detalhe: sem nenhum tratamento. Chefe de Obras do então prefeito Carlos Eugênio Mexias, Pedro Ivo da Costa conhecia de perto esse problema. “Passei o cão sem água”, lembra Pedro Ivo, mais tarde duas vezes prefeito. “Ainda no governo do Carlinhos, construímos a segunda adutora, que levava água de Santa Catarina até a Marechal Paulo Torres, uma grande obra na época. Mas só isso não resolveu o problema”, recorda Pedro Ivo que, anos mais tarde, já como prefeito, conseguiu que o então governador Floriano Peixoto Faria Lima trouxesse a Cedae para Vassouras. Em março, a Cedae completou 40 anos de atuação em Vassouras. Para lembrar a data, a reportagem da TRIBUNA DO INTERIOR entrevistou o ex-prefeito e funcionários de carreira da companhia na sede da Cedae em Vassouras na quarta-feira, dia 28. Aos 82 anos, Pedro Ivo recordou da inauguração do espaço, em março de 1978, quando o então governador Floriano Peixoto Faria Lima, nomeado pela ditadura civil militar, esteve em Vassouras. “Nunca recebi essas fotos. Depois vou fazer uma foto da placa. Ainda tem a placa com o meu nome? Eu nunca recebi uma foto. O governo era da Arena, eu era prefeito pelo MDB. Era tratado como inimigo”, recorda o ex-prefeito. Para a sorte de Pedro Ivo – e de Vassouras --, o governador nomeado tinha um perfil mais técnico que político. “A assessoria me tratava como inimigo, mas o Faria Lima era técnico. Uma vez, o José Vaz (o último deputado estadual eleito por Vassouras, filiado à Arena, partido do governo militar) ficou muito chateado: o governador me atendeu e o deixou, mesmo deputado da base, esperando.” A placa ainda está lá, as lembranças daquela época também. Servidor mais antigo lotado em Vassouras, o auxiliar administrativo Anísio da Rocha Goulart começou a trabalhar na Cedae logo que a companhia chegou ao município. “Eu fiz tornearia no Senai e procurava emprego na indústria. Voltava de Barra Mansa praticamente empregado. Consegui vaga na Barbará. Quando cheguei a Vassouras me orientaram a ir ao Senai, que na época sempre representava oportunidade de emprego. Lá, me disseram que uma companhia estava vindo para Vassouras trazer água do Paraíba para abastecer a cidade. Achei estranho, mas me interessei. Me informaram então que haveria um concurso e que as inscrições iriam até 2 da tarde daquele dia. Juntei os documentos e me inscrevi”. Não era só para Anísio que a ideia de trazer água do Paraíba do Sul para abastecer a cidade parece utopia. “Muita gente falou: ‘do Paraíba? Mas tem cadáver todo dia”, recorda-se Pedro Ivo. “A mim também soava estranho, mas eu queria era água, este era o grande pesadelo da época”. O estranhamento foi tanto que muita gente demorou anos para colocar “água da Cedae” em casa. “Meu pai, mesmo eu trabalhando na Companhia, levou muito tempo para aceitar a água tratada. A gente morava no Madruga e tinha poço em casa”, lembra Anísio. Acostumado a beber água de minas, o vassourense demorou um tempo a aceitar que a água do Paraíba do Sul, tratada, era uma boa opção. O hábito da água sem tratamento custou caro ao vassourense. A vistoriante SolangeTamiozzo entrou na Cedae em um concurso na década passada. A noção da importância do aniversário de 40 anos da companhia na cidade a fez pesquisar a história . Recolher fotos, recortes de jornal e conhecer a caminhada da Cedae em solo vassourense. “Vassouras era a cidade da ameba antes da Cedae”, afirma. Mais tarde, Pedro Ivo, que não presenciou a afirmação de Solange, lembrou do protozoário. “Antes da Cedae, eu vivia com ameba. Depois, nunca mais tive. Pedro Ivo acha que, apesar do choque cultural, a Cidade recebeu bem a Cedae. “A cidade recebeu bem a água. A obra esburacou a cidade toda, mas tínhamos meia dúzia de bons calceteiros. A Cedae abria o buraco e nós íamos atrás, fechando”, lembra. Afinal de contas, a companhia precisou instalar uma rede de seis quilômetros entre a captação no bairro de Barão de Vassouras e a estação de tratamento, no Centro. A primeira gestão de Pedro Ivo à frente da Prefeitura foi marcada por obras icônicas. Ele destaca a Cedae, ao lado da Rodoviária Nova, como suas principais realizações. “A Cedae garante nosso abastecimento até hoje e esse era um problema crônico. A rodoviária também foi fundamental. Dá para imaginar hoje os ônibus entrando pelo Alto e passando pela Caetano Furquim? Imagine o caos. Mas na época, houve resistência. Recebi uma comissão de vassourenses para reclamar da mudança”. Até entre os servidores da Cedae, a água oferecida aos vassourenses é considerada de altíssima qualidade. “Temos a melhor água da região. Podem ter certeza disso”, comenta Antônio Mello de Macedo, chefe da companhia em Vassouras, três décadas de empresa. Anísio explica que, além do tratamento eficiente, a qualidade é garantida pelas pedras no leito do Paraíba do Sul no município. “Você pode notar que depois de Barra, o leito do Paraíba tem muitas pedras. Isso aumenta a oxigenação da água e é muito bom para o tipo de tratamento que realizamos aqui”, comenta.

Nova linha deve resolver abastecimento problemático em comunidades do Madruga Trinta anos de Cedae e atualmente chefe da estação de tratamento de Vassouras, Antônio Mello de Macedo, o Lico, acompanhou de perto o crescimento da companhia no atendimento ao vassourense. Hoje, a Cedae está presente em todo o município. Em Demétrio Ribeiro e Andrade Pinto, onde chegou antes mesmo da área central, Andrade Costa, Barão de Vassouras, Massambará, Itakamosi e Ferreiros. Em Vassouras, a Cedae comemora as quatro décadas de olho no futuro, apesar do fantasma da privatização. Novas bombas instaladas na captação, em Barão de Vassouras, garantem mais água por segundo enviada à estação de tratamento. Para suportar a nova vazão, de 90 litros por segundo, a companhia trocou a tubulação. Agora, a Cedae prepara uma nova rede para solucionar problemas de abastecimento em comunidades do bairro do Madruga. “Hoje a água não tem força para subir às áreas mais altas durante o dia. Todo o abastecimento da parte baixa é concluída até que a água suba. Por isso, vamos investir em uma nova rede. A água sairá da estação direto para as comunidades do Morro da Deína, Jorge Feres, Vila Odete Lacerda Dantas e Rua Antônio Dias Rosa”, informa Antônio Mello de Macedo, o Lico. Ao todo serão 2 mil e 800 metros de rede. As obras, que dependem de apoio da Prefeitura, devem começar em abril. “Precisamos do apoio da máquina da Prefeitura e ela estava às voltas com as chuvas de verão. Nós estamos prontos para iniciar o trabalho”, diz Lico. O vassourense, no entanto, precisará de paciência. Para a rede chegar ao Madruga, muito buraco precisará ser feito desde a estação de tratamento. E os calceteiros citados por Pedro Ivo na reportagem não atuam mais na Prefeitura. A relação entre Cedae e Vassouras nem sempre foi calma. Nos anos 1990, durante o governo do prefeito Renato Ibrahim, setores da administração e da Câmara de Vereadores chegaram a trabalhar pela municipalização do tratamento e distribuição da água. Na Câmara, muitas sessões com discursos inflamados foram realizados. Embora estivesse inclinado a realizar a municipalização, o prefeito Renato Ibrahim não chegou a sinalizar isso oficialmente à companhia, informam os servidores que já atuavam na Cedae naquela época. Depois de vários estudos e de chegar à conclusão de que o município gastaria muito para manter o fornecimento de qualidade, a ideia foi abandonada. A água de Vassouras é de qualidade. Mas cara. Como a Cedae precisa fazer a captação a seis quilômetros do Centro, gasta muita energia elétrica, além de depender do bom funcionamento de suas bombas. “A conta de luz que a Cedae paga é muito cara. E quando a bomba dá problema em Barão o conserto nunca é menos de 30 mil reais”, conta Lico. A empresa sofre ainda com a inadimplência. A Cedae recebe, mensalmente, apenas 50 % do valor que ela emite. A companhia trabalha também para conter os gatos, as instalações clandestinas que roubam água. Segundo Solange Tamiozzo, na maioria das vezes o gato é feito por consumidores de alto poder aquisitivo. “As pessoas mais pobres têm muita preocupação com isso”, afirma.

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