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Paulo Mandaro: um nome na história do samba vassourense



Fluminense Futebol Clube, Centro de Vassouras, Carnaval de 1976. Paulo Mandaro era eliminado do concurso de foliões do clube, conhecido por fazer um dos melhores carnavais da região em meados dos anos 1970. “O Paulo se desentendeu com a organização do baile e resolveu que era hora de fundar uma escola de samba no Madruga”, lembra o irmão mais novo, Luiz Afonso. “Um ano depois a escola estava fundada”.

A empolgação de Paulo Mandaro, então com 28 anos de idade, se juntou à vontade de madruguenses de gerações anteriores que sonhavam com a criação de uma escola de samba no bairro. Nomes como o de Paulo Amaral – que acabaria batizando a quadra de ensaios -- , João de Souza, Alvaro Gomes e Dada Athayde, além do próprio Martins Mandaro. “Essa antiga geração queria fazer, mas não tinham jeito. O Paulo foi o jeito que apareceu”, recorda Roberto de Souza. Ainda nos anos 1970 outros nomes se firmariam como baluartes da escola, como Jorge Castilho, Magaly Sayão e Deína Delgado.

Paulo Sérgio Mandaro, ou simplesmente Paulo Mandaro, o psicólogo apaixonado pelo Flamengo e pelo bairro onde nasceu, foi eleito o primeiro presidente da Unidos do Madruga. “Ele foi presidente, carnavalesco, foi tudo na escola”, comenta Roberto. À frente da escola, Paulo mobilizava o bairro em torno da paixão pelo Madruga. “Ele sempre foi muito envolvente, contagiava todo mundo”, lembra o irmão mais novo. Roberto lembra que, às vésperas do primeiro desfile valendo título, o Madruga perdeu seu diretor de bateria. “O diretor seria um rapaz ligado ao Surpresa, que não iria desfilar. Quando ficou definido que eles sairiam, ele foi pra Pedreira. Foi então que o Paulo tirou o coelho da cartola e nomeou o Zé Alencar diretor de bateria”. Detalhe: Zé Alencar tinha 15 anos à época. A jogada deu certo: Zé Alencar é até hoje o diretor de bateria mais festejado no Madruga e a escola ganhou o campeonato com nota máxima em bateria.

Bateria, aliás, que tem lugar certo no coração de Dona Waldanir, uma das matriarcas da escola. “Foram vinte anos sem ir à escola. Quando cheguei lá, um filme passou na minha cabeça. Toda energia e o amor do Paulo pelo Madruga. Quando ouvi a nossa bateria, que emoção. A nossa bateria é linda, é o coração da escola”. A emoção com a bateria e as lembranças do filho não impediram que Dona Waldanir revelasse algumas frustrações. “A escola foi a vida dele. O Grupo Seguir, também. O grupo acabou e este ano, a escola não sai. Isso pra ele, era a morte”, lamenta.

Se o Madruga foi a grande paixão, o Seguir foi o projeto principal de Paulo Mandaro quando, em meados dos anos 1990, ele se viu infectado pelo vírus HIV. Em um tempo em que as políticas públicas para o tratamento da Aids ainda engatinhavam, Paulo mobilizou a cidade em torno do tema. Fez palestras, atraiu militância para o Seguir, principalmente pessoas envolvidas com a área da Saúde, incluindo a principal autoridade da região no assunto, a clínica geral Thais Maria Niemeyer da Rocha Monsores. Seu sonho era construir um centro de referência no atendimento às vítimas de uma doença que à época amedrontava e era cercada de muitos preconceitos.

Preconceito que Paulo encarou quando assumiu a sua homossexualidade. A repercussão mais negativa acabaria se dando dentro da família: a relação com o pai se deteriorou a ponto de eles não se falarem. As pazes só viriam quando a Aids começava a debilitar e minar as forças de Paulo. Dona Waldanir diz que a notícia não foi simples de digerir, mas que não poderia abandonar o filho, que a esta altura já era pai de uma menina, Paula, hoje advogada radicada em Minas Gerais. “Quando ele voltou do Rio, o telefone não parava de tocar com mulheres procurando o Paulo. De repente o menino aparece com essa história. Não foi fácil administrar isso, mas eu ia fazer o quê? Abandonar o meu filho?” A notícia chocou a família e a cidade, mas Paulo seguiu em frente.

Semana passada, a reportagem da TRIBUNA DO INTERIOR esteve na casa de dona Waldanir. Durante duas horas ouviu histórias de Paulo e do Madruga. Algumas deliciosas. “Paulo não dirigia, nunca dirigiu. Ele me chamou pra ir com ele ao Rio comprar tecido para as fantasias da escola. Mas ele era daltônico e eu também. Chegamos em casa e mostramos pra mãe: olha que azul lindo. E ela na hora: mas isso é lilás”, diverte-se Luiz Afonso. “Já tivemos caso de a costureira descolorir e repintar um pano para corrigir problemas com o daltonismo do Paulo”, emenda Roberto, certa vez nomeado diretor de harmonia em plena avenida. “O Paulo era presidente e não estava gostando da armação da escola na concentração. E foi falar com o diretor de harmonia. O diretor resolveu lhe encarar: ‘eu sou o diretor de harmonia, e ela vai sair assim’. E o Paulo o destituiu ali mesmo. ‘Era. Roberto, o diretor agora é você, assuma agora a direção de harmonia”, disse, momentos antes do desfile que garantiria o tricampeonato ao Madruga, no Carnaval de 1980.

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