Posts Recentes
Posts Em Destaque

Casa Salgado: uma loja na história de Paty do Alferes

Criada nos anos 1950, armazém mantém a tradição em meio à modernidade do século XXI

Sorridente e bem humorado, o comerciante João Baptista Salgado passou a manhã da quinta-feira, 19 de outubro, atendendo ao telefone e recebendo cumprimentos pelo 92º aniversário. Sentado ali, do lado de dentro do balcão da Casa Salgado, de onde acompanhou os caminhos e descaminhos da história de Paty do Alferes, desde os tempos em que o segundo distrito de Vassouras apenas sonhava com a emancipação. A partir do secos e molhados que criou como Armazém São João em 1953, seo João viu Paty não só se emancipar, mas se desenvolver, mudar de hábitos, cultura agrícola, paisagem – e até de religião. De quebra, no cinema viu a exibição de clássicos eternos e de bem perto a estreia de um dos jogadores mais importantes da história do futebol brasileiro.

João Salgado não nasceu em Paty. Chegou no município aos 19 anos, vindo da mineira Mar de Espanha, onde começou a trabalhar e, entre outras atividades, iniciou a carreira no comércio. Radicou-se em Avelar. E foi torcendo para o time local, “um dos melhores da região naquela época”, que João esteve em Miguel Pereira em 21 de junho de 1953. No estádio instalado onde hoje funciona o fórum da cidade vizinha – à época também distrito de Vassouras --, João Salgado estranhou ao ver um time de camisas listradas em branco e preto cheio de rostos desconhecidos. “Mas o Avelar mudou o time inteiro? Não conheço mais ninguém”. Não era o Avelar. Tratava-se dos aspirantes do Botafogo, que estreava sem pompas, um novo ponta-direita, que mais tarde seria o dono das pernas tortas mais famosas do futebol mundial. Naquele amistoso, vencido pelos cariocas por um magro 1 a zero, a imprensa da capital tratava o ponta como Galicho. Mais tarde, como o leitor já deve ter intuído, o ponta entraria para a história como Garrincha. “Mas naquele dia eu fui pra casa sem saber que tinha visto um gênio em campo. A atuação foi apagada”, recorda-se João.

Apesar da semelhança com a camisa do time local, o Botafogo não ocupou o coração de João. Anos antes do amistoso em Miguel Pereira o comerciante escolhera o cruzmaltino de São Januário. “Eu já estava na hora de escolher um time. E ouvi um Vasco e Bangu, com Domingos da Guia na zaga banguense. Já veterano, na sua segunda passagem pelo clube, mas era o Domingos da Guia. O Vasco goleou. Não lembro se por 4 a zero ou 4 a um. Naquele dia decidi que seria Vasco”. E o senhor se lembra onde acompanhou este jogo? “Em um bar em Avelar, que naquele tempo rádio não era coisa que qualquer um tivesse não”. Depois que formou família com o amor de toda uma vida, a esposa Áurea Pullig Salgado, com quem casou dois anos antes de fundar o Armazém São João, Salgado multiplicou, em filhos e netos, o amor pelo Vasco, embora sempre tenha convivido com a diversidade em casa: a mulher é rubro-negra e influenciou parte da família. “Ela já era Flamengo”, explica.


Naqueles anos, Paty do Alferes nem sonhava em se tornar a capital fluminense do tomate. “Vagem, repolho, cenoura, nabo, pimentão. Plantava-se de tudo. Menos tomate”. Paty tinha duas grandes atividades econômicas: a lavoura e o comércio, engordado pelo atendimento aos veranistas que vinham da região metropolitana da capital. “Eram mais que clientes, tornavam-se grandes amigos. E compravam tudo aqui. Não vinham de carro. Chegavam de trem e só traziam roupas do Rio”. A estrada de ferro era fundamental para a Paty de então. Ligava a cidade ao Rio, a Três Rios, a Vassouras, Miguel Pereira e Portela. O trem carregava trem, histórias de vida. E mercadorias. O que não vinha de trem, chegava a Paty de caminhão. E dava trabalho. Muito trabalho. Não existia a ponte que facilitou o acesso à cidade. A chegada por via rodoviária se dava, unicamente, através do pontilhão que existe até hoje. “O caminhão cheio não passava. Então, vinha carregado e tinha de descer tudo para passar no pontilhão. Que trabalheira, já imaginou?”

Se o veranista chegava de trem, o patiense do interior do município vinha a cavalo. “Não tínhamos estradas vicinais como hoje. O povo vinha para o Centro a cavalo. Todo mundo a cavalo. Carros eram pouquíssimos. Taxi, por exemplo, eram três quando eu cheguei aqui”, diz, verbalizando o nome de cada “chofer” da época.

Época em que ir ao cinema era programa obrigatório para o jovem João. Ele lembra de clássicos como Noviça Rebelde, Os Dez Mandamentos e Ben Hur como filmes inesquecíveis. Como inesquecível também foi a tarde cinematográfica que começou com um pito levado por estudantes da cidade. Dono de um internato em Arcozelo, Capitão Zenóbio da Costa (irmão de Euclides Zenóbio da Costa, que entraria para a história como ministro da Guerra de Getúlio Vargas) deu falta dos alunos em uma determinada tarde no final da década de 1940. Não precisou pensar muito para ter uma ideia de onde estariam seus alunos. Fazem mais de 60 anos, mas o comerciante se lembra bem do alvoroço com a chegada de Zenóbio ao cinema que funcionava no mesmo espaço ocupado há décadas pela Casa Salgado, no centro de Paty. “Ele chegou gritando, dizendo que os alunos roubavam os pais quando faltavam às aulas, descendo do cavalo e gritando. Foi uma correria só”, lembra-se, se divertindo com a história.

Já com certa experiência no comércio, João Salgado não teve dúvidas quanto ao nome do armazém que criara em 1953. “Naquela época era normal colocar o nome de um santo no comércio”. Católico, João Baptista colocou o nome do xará, que segundo a Bíblia batizou Jesus Cristo, no estabelecimento. Funcionou assim até 1983, quando o filho Reinaldo abandonou a fonoaudiologia para trabalhar com o pai na loja. O nome Casa Salgado vem deste tempo. “Fui para o Rio, estudei e voltei fonoaudiólogo. Mas a coisa não pegava por aqui. Trabalhei por um tempo até decidir pegar com o pai na loja”.


No antigo armazém, seo João acompanhou também o aumento do número de evangélicos em Paty. Hoje, o censo aponta Paty do Alferes como a cidade mais evangélica do sul fluminense. “Na Maravilha, um inglês muito querido por aqui, formou a primeira comunidade evangélica lá pelos anos 1950 ou 60. Sr. Cleiton era o nome dele. O povo gostava tanto dele que se você notar, os moradores da Maravilha têm um sotaque diferente, parecido com o jeito que o sr. Cleiton falava o português”, garante. E o que o Armazém São João vendia lá nos anos 1950? “Arroz, feijão, muita coisa. Ferragens era muito pouco. E muita coisa a gente vende até hoje. Tem coisas do arco da velha aí”, diz, rindo e apontando para as lamparinas na prateleira. Mas tem saída, seo João? “Tem, vende até hoje. Tudo o que tem aqui é porque ainda vende”.

Como Armazém São João ou Casa Salgado, no primeiro endereço no Largo da Feira ou no espaço definitivo, onde antes funcionara um cinema no centro de Paty, a loja da família Salgado faz parte da história do município e tem lugar garantido na memória afetiva do patiense. Sua importância, aliás, transcende o município e a região. O produtor cultural Flavio Aniceto, que mora em Paquetá, a ilha da Baía de Guanabara mais querida pelos fluminenses, vê o espaço além da importância comercial. Para ele, a Casa Salgado é uma casa de cultura. “Essa é uma questão cultural, mais do que comercial. Vejo lojas como essa como casas de cultura”, diz, em depoimento publicado pela Tribuna.

Logo após a entrevista, João Salgado foi para a casa, comemorar o aniversário ao lado da família. O repórter ainda quis saber se a festa seria movimentada. “Ano passado, fizeram um bafafá, eram 90 anos”, disse o comerciante, já ansioso para rever Áurea e celebrar a data ao lado da companheira com a qual criou a família de cinco filhos, 8 netos e três bisnetos. De sua cadeira, ainda reflete sobre a evolução de Paty desde que conhece a cidade. “Cresceu muito. Emancipou-se. Mudou muita coisa”, diz, sem perder de vista uma análise crítica do presente do município. “Infelizmente ainda sofremos muito com problemas financeiros, administrativos.”



Siga
Nenhum tag.
Procurar por tags
Arquivo
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square

TRIBUNA DO INTERIOR EDITORA LTDA. Registro  Estadual nº 3320598969-9

Inscrição Municipal nº 6813 L 115 - CNPJ 02.528.144/0001-40

Registro na ADJORI – RJ 78 

Redação, Administração e Oficinas – Rua Profº Marcelo de Alcântara Pinto, 173,

Telefone: (24) 2471-7822

Parque J.K., Vassouras - RJ - CEP 27.700-000

Contador de acessos