Posts Recentes
Posts Em Destaque

Homenagem merecida



O mestre jongueiro Cacalo é o grande homenageado da exposição Tambores do Vale, inaugurada na sexta-feira, dia 6, no Centro Cultural Cazuza, no Centro Histórico de Vassouras. Na exposição, Cacalo é o personagem principal de uma série de fotografias de autoria de Kitty Paranaguá, que atuou em Vassouras em projetos do Iphan para registrar o patrimônio imaterial da cidade. A exposição ficou em cartaz até 27 de setembro, quando seguiu para municípios como Piraí e Rio das Flores. Após seu encerramento, todo o acervo será doado ao Jongo Caxambu Renascer, fundado por Cacalo e a irmã, Claudia Mamede. A curadoria foi de Claudia Braga Gaspar e Bernadete Braga, com patrocínio do Instituto Vassouras Cultural e da Prefeitura de Vassouras e apoio do FLOR Atlântica. Mônica Costa, que até o início do mês ocupou o cargo de superintendente do Iphan no Rio de Janeiro, exaltou a importância de Cacalo para a cultura popular do Vale do Paraíba. “Hoje estamos aqui para homenagear nosso querido Cacalo, liderança jongueira, líder do movimento negro, mestre da cultura popular, amigo, pai, irmão, ilustre vassourense e responsável pela salvaguarda de uma tradição ancestral”. Patrimônio cultural brasileiro desde 2005, o Jongo do Sudeste tem suas raízes no Vale do Paraíba. Consolidouse, principalmente entre os escravizados que atuavam nas lavouras de café de Vassouras e região. Expressão afro-brasileira que integra percussão de tambores, dança coletiva e elementos de espiritualidade, representou ainda uma forma de comunicação desenvolvida no contexto da escravidão. Serviu como estratégia de sobrevivência e de circulação de informações codificadas sobre fatos acontecidos entre os escravizados por meio de pontos que os capatazes e senhores não conseguiam compreender. Luiz Carlos Rodrigues nasceu em uma família conhecida por valorizar a cultura recebida de seus ancestrais. Filho de Zé Bolero, sambista, ícone da cultura afrobrasileira na Vassouras do século XX, Cacalo lutou muito para retomar o Jongo que conheceu ainda na juventude. Após um longo hiato, Cacalo conseguiu, ao lado da irmã, criar o Jongo Caxambu Renascer, único remanescente na preservação da cultura jongueira em Vassouras. R e s p o n s á v e l pelas fotos da exposição, Kitty Paranaguá frequenta Vassouras há mais de 40 anos. “Conheci Zé Bolero, Rosinha. Sempre tive muita admiração pela força, a beleza da família. O sorriso lindo e maravilhoso da Rosinha. Me aproximei do Cacalo quando o ateliê Oriente ganhou um edital Arte e Patrimônio do Iphan, em um trabalho chamado Caminhos Cruzados”. Em Vassouras, Kitty logo se interessou em fotografar o Jongo. Participou de diversas apresentações do Renascer, fotografou o Cortejo das Tradições. “Fotografei o Cacalo no Jongo, várias vezes. Sempre me interessei em cultura popular. O trabalho acabou tratando mais da paisagem, da devastação causada pelo café. Editei as fotos e elas ficaram guardadas. Ainda consegui entregar para a Rosinha, mas o Cacalo morreu um tempo depois e não chegou a ver as fotos. Uma pena que ele não esteja aqui. Queria fazer essa homenagem com ele vivo. Trata-se de uma memória importante para a cidade de Vassouras. Que a família continue esse trabalho. Que o Jongo vá adiante, que Vassouras consiga manter essa cultura”, afirmou, em entrevista à TRIBUNA DO INTERIOR através de um aplicativo de mensagens. Para a arquiteta Isabel Rocha, a homenagem a Cacalo foi “linda e justa”. Segundo Isabel, a importância de Cacalo, “que fez tanto para divulgar Vassouras nos movimentos de cultura imaterial”, transcende a cidade. “Ele tem reconhecimento em todo o estado, por difundir e levar o Jongo. Em relação ao município, ele permitiu que Vassouras penetrasse em lugares não ocupados por ela anteriormente”. Especialista na História do Vale do Paraíba, Isabel acredita que a partir de Cacalo “o nome de Vassouras seja levado em uma discussão de relações que hoje precisam ser estabelecidas em parâmetros mais humanos até”. Historiador e jornalista, João Henrique Barbosa acredita que a homenagem é uma rara oportunidade para se furar o que ele classifica como a “invisibilidade” da importância do negro para a história de Vassouras. “Apesar dos avanços incontestáveis das últimas décadas, ainda não há uma simetria entre a memória dos senhores e a memória popular. Cidade dos Barões, nomes de senhores espalhados por ruas e palácios constroem uma narrativa tendenciosa que aponta Vassouras como uma obra da classe senhorial. Vassouras é muito mais do que isso. Em vida, Cacalo lutou por uma nova narrativa, lutou pela resistência de uma cultura esmagada pela invisibilidade do negro e pelo fundamentalismo religioso que hoje se espalha pelo país. Nem sempre Vassouras compreendeu Cacalo. Emblemático que esta homenagem tenha vindo de fora para dentro de Vassouras”. Luiz Carlos Rodrigues morreu em novembro de 2015, vítima de um infarto fulminante.

Siga
Nenhum tag.
Procurar por tags
Arquivo
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square

TRIBUNA DO INTERIOR EDITORA LTDA. Registro  Estadual nº 3320598969-9

Inscrição Municipal nº 6813 L 115 - CNPJ 02.528.144/0001-40

Registro na ADJORI – RJ 78 

Redação, Administração e Oficinas – Rua Profº Marcelo de Alcântara Pinto, 173,

Telefone: (24) 2471-7822

Parque J.K., Vassouras - RJ - CEP 27.700-000

Contador de acessos